De agora

refúgio para o que será eterno

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Se alugarem esta casa, acabou. Porque tudo isso aqui é sexo, e o sexo não transcende, não vislumbra aquilo que é impalpável. Estamos abraçados e eu sei que tudo termina com o gozo, e o gozo dura até o momento do girar da chave na porta. Vem mais perto, amor, porque eu quero ver se consigo sentir os seus pensamentos. Não se levante, não desça as escadas. Eu olho aqui de cima e seu corpo escuro sob o sol no pátio, nu e vivo em meio à fumaça do cigarro. Meus olhos e meu coração se derramam todos dessa janela sobre você, e se eu pudesse, se impedisse que a casa nos fosse tirada, eu mesma me jogaria. Mas as badaladas do relógio me repeliram do parapeito, os três anúncios dessa tarde quente e de sua finitude. Fora daqui as badaladas não são arrastadas e sofridas. E por isso eu sei que a casa aprisiona todo o sentimento, e ele não passa das paredes, o amor. É ele que não transcende, na verdade. Deito no chão e ouço seus passos em direção ao banheiro. Você se lembrou de levar um lençol para nos aquecermos de toda a ausência, mas com os ouvidos colados na madeira eu posso entender a sua relutância na volta. Não tema, amor, porque quando a chave encontrar a porta não mais seremos. E talvez os novos donos dessa casa que nunca foi nossa possam encontrar no silêncio das horas os nossos gritos e o êxtase, e as paredes possam enrubescer por causa do amor que nos roubaram. E talvez sejamos para sempre aqui, somente aqui, almas perdidas da evolução, corpos rarefeitos aprisionados nas três badaladas. Eu me contentaria com isso. Riria até a madrugada e correria nua pelas escadas. E me jogaria da janela sobre seu corpo no pátio, sem medo da espera ou do desencontro. Eternamente. Deite aqui, amor, nas minhas coxas. Deixe-me passear os dedos entre os anéis pelo menos uma vez. Venha, venha logo, que eu já posso ouvir o tilintar das chaves. Agora os passos na escada e as badaladas. Já são três horas.

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